Causações em discurso

Uma questão que me parece maltratada em diferentes níveis pelas pessoas (de acordo com sua familiaridade com as ciências filosóficas, da saúde, e de acordo com qual delas também), é a força com que a sociedade ‘causa’ a vivência individual. Ela claramente não passa desapercebida pelas ciências, porém vejo como necessária sua consideração mais profunda, como ferramenta de desconstrução da ciência mesma.

Conceder maior consideração à fome, ao desespero humano, à morte desnecessária e prematura, é fundamental para que nos questionemos um pouco antes de tratar uma pessoa voluntária que passou por ‘experiência psicologicamente traumática’ durante trabalhos n’algum dos tantos lados sofredores do mundo. É ter em mente que a realidade do mundo é, sim, chocante, violenta, febril; e perceber, muito mais sofisticadamente que o dó do paciente ‘submetido a tristes condições’, que a origem do trauma está no choque entre a ilusão infantil de bons-mocismos e meias-verdades contra o sangue metálico da guerra e moscas não-esterilizadas de acampamentos emergenciais médicos.

E, para sair do clínico para o social, saudável seria o questionar-se: e as tantas milhões de pessoas cuja ‘realidade avassaladora e chocante’ é a das balas atravessando seus corpos usualmente racializados, é a das infecções em chãos de terra e calor? Mas esta é uma divagação.

Em um outro exemplo, onde estarão as considerações sobre o caráter cultural e socialmente constituído dos gêneros, para não mencionar suas aparentadas opressões cis-generistas e hetero-normativas, nos diagnósticos dos supostos transtornados? As dores, que existem, imputam-se a quem, quando o garrote tem digitais sociais? E como saberemos dizer da inexistência d’um garrote ainda maior, a prender as ciências mesmas?

Não acredito que devamos abandonar esforços na compreensão da humanidade em seus princípios orgânicos, porém é fundamental rejeitar as milenares baboseiras que buscam atribuir-nos hierarquias mais ou menos imutáveis. E, a partir desta rejeição, (re)questionar nossos esforços na compreensão da humanidade em seus princípios orgânicos. Há fortes resistências (pois é, cristãs também, n’algumas paragens fundamentalmente: tá ficando feio pra turma da terra quadrada) em ambos mecanismos.

“O garrote só se sente quando aperta no pescoço; se tá nos livros, nos papeis, nas abstrações, é até confortável.”

(fecho de discurso, simpósio-debate-mesa-conferência)

~ por Douglas em janeiro 17, 2012.

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