Restaurante fino.
Entraram e já puderam sentir o agradável calor amadeirado do recinto, ótima sensação para aqueles dias de mais frio. Foram amavelmente encaminhados à mesa reservada, e já olhavam os cardápios com uma feição dissimulada de conhecedores plenos dos sabores descritos na carta quando, após cinco minutos para pensar, o garçom chega prestativo:
– Boa noite, senhores, como vão? Posso ajudá-los com alguma sugestão ou já estão decididos?
– Já decidimos, obrigado.
– Você poderia me trazer o especial de hoje, por favor.
– Ao molho de menta?
– Sim.
– O senhor?
– Queria lhe pedir para solicitar ao chef que prepare aquilo que ele preferisse se estivesse a cozinhar para si próprio.
– Perdão?!
– Isso mesmo. Aquilo que ele quiser fazer.
– Vou verificar, senhor. Com licença.
Esqueceu-se até mesmo de lhes oferecer a bebida. Entrou na cozinha, acostumou os olhos ao brilho do azulejo branco, chegou-se ao cabeça da cozinha e lançou o inusitado pedido, não antes de requisitar o especial do dia. O homem gordinho e jovial fez troça:
– Vou fazer um bife acebolado! Rá!
Riram-se por rápidos segundos, e o garçom já tinha de seguir com seus pedidos e clientes. Deixou a papeleta nas mãos do chef e afastou-se ligeiro mas sem demonstrar afobação. Sentindo que havia passado o problema adiante, seguiu tranquilo.
– Duas taças do vinho da casa, por favor.
Aproveitando a breve interação do pedido de bebidas, tentou procurar alguma razão para aquele inusitado prato principal. Parecia um cara normal, até, não um excêntrico; era tão normal quanto a pessoa que o acompanhava, que como tantos naquela noite haviam pedido o especial do dia. A maioria ao molho de menta. Desistiu, e caminhou até o bar para buscar o bom e sincero vinho da casa.
Iniciou a preparação do especial da casa sem qualquer concentração. Não que ela fosse imprescindível — afinal àquela altura da noite era-lhe intuitiva a receita –, mas de fato só fazia pensar em qual prato o acompanharia. Levantou rapidamente os olhos a buscar a mesa número cinco. Quem daqueles dois teria cometido aquela excentricidade, imaginava. Encontrou seu reflexo mais apurado para desviar a atenção quando notou um ligeiro movimento de olhares desde a mesa cinco até o pobre cozinheiro aflito, em branco: raciocinou, não sem certa razão, que o fato de se conhecerem visualmente geraria algum tipo de compromisso ou intimidade entre eles, o que seria problemático e poderia afetar sua criatividade culinária. Seguiu mexendo o molho que já estava quase pronto, e sob um delicado aroma de menta tomou sua decisão.
Havia muitas considerações a temperar aquele prato. O outro era o especial do dia, todos sabíamos, e o garçom mesmo já não suportava o usualmente delicioso aroma de menta que se fazia presente. Mas o que trazia à mão esquerda, nem mesmo aquele olfato treinado poderia adivinhar com exatidão — tinha lá suas hipóteses, claro. Imaginou, sim, e de forma correta, a dialética que rondou os pensamentos do chef ligeiramente obeso e alegre, a oscilar constantemente entre o receio de ser exageradamente sofisticado e aparentar arrogância de mau gosto — e, por que não dizê-lo, insincerade também –, e o temor de não surpreender por haver sido demasiadamente simples, trivial, quase desleixado. E, por toda esta carga de sentimentos percebida, o moço trazia a bandeja com peculiares cuidados, quase se esquecendo do especial do dia equilibrado em sua destra mão.
Olharam-se os fregueses por três segundos, já com suas refeições à mesa e as taças aproximadamente à metade. De um lado, o especial do dia, de aspecto saboroso porém com um tom tedioso ao se colocar à frente daquele prato coberto, e de outro o já mencionado prato sendo afagado na alça de sua tampa por dois dedos curiosos do garçom — que se valeu do requinte do estabelecimento para poder ver em primeira mão qual fora, afinal, o resultado daquele pedido encaminhado por ele e até ali desconhecido.
– Oh! — exclamaram.
Numa pequena mesa de plástico num dos cantos da cozinha, um ovo frito se sobrepunha a um suculento bife acebolado. O cozinheiro comia silencioso.




