Sensacionalismo barato

•fevereiro 9, 2010 • Deixe um comentário

Lula chega debaixo de tiroteio‘, dizia a manchete. Já imaginando a confusão, com possíveis feridos e mortos, dei o clique rápido para simplesmente perceber que os tiros eram uma metáfora pobre para as críticas feitas por FHC recentemente.

Pelo menos antes faziam isso para vender jornal. Hoje é por um clique mesmo.

Haiti

•janeiro 25, 2010 • Deixe um comentário

Bom, sobre a tragédia em si não há muito o que dizer, com tantas vidas em tão frágil situação, para que não se mencionem aqueles que não resistiram. É tempo para a ajuda rápida e desesperada, e seguem os esforços admiráveis de tantas pessoas e instituições. Esperemos que as dificuldades colocadas, em parte derivadas de interesses ou incompetência humanos, sejam superadas e que haja efetiva vontade política para, primeiro, estabilizar a situação no país, e, segundo, reconstruir um novo Haiti que não siga nenhum modelo previamente tentado por diferentes impérios, em especial o do isolamento e o da opressão.

Para além das notícias relativas aos esforços de resgate, socorro médico e reconstrução, vale muito a pena entender as causas não-naturais do desastre: um país saqueado, posteriormente isolado e endividado, com diferentes interesses externos influenciando sua política e sociedade. Caso não se incorporem estes elementos à análise, não se pode explicar a mortalidade deste terremoto em relação a outros de menor intensidade que afetaram outras regiões. A debilidade das construções e da infra-estrutura em geral, consequência de um país em dificuldades econômicas e sociais históricas, são tão importantes quanto o tremor em si na extensão da tragédia e na eficácia e eficiência do socorro.

Tendo isso em mente, lanço alguns textos interessantes que encontrei a respeito do tema, a seguir:

Haiti: A tragédia política (Todos os Fogos o Fogo): como de costume, uma análise política muito bacana do Maurício Santoro. Levou a vários dos links a seguir.

Os pecados do Haiti (Eduardo Galeano) e O legado dos amaldiçoados: uma breve história do Haiti (Antonio Lassance): dois artigos da Carta Maior sobre a história haitiana.

Haiti, que ajuda? (Pesquisadores da Unicamp no Haiti): artigo sobre a tragédia testemunhada pelos pesquisadores, e uma perspectiva histórica crítica sobre a situação do país.

Why is Haiti so poor? (Bob Corbett): investigação das razões pelas quais o Haiti é (ainda) mais pobre que outros países similares de experiência colonial.

The Opinuary Column (Patriot Boy): desancando Pat Robertson, que crê em causas divinas para o desastre.

E que haja (alguma) paz para os haitianos.

Abraço

•janeiro 19, 2010 • Deixe um comentário

Caminhava por ruas já conhecidas, e poderia até mesmo reconhecer alguns desconhecidos que com ele partilhavam um ou outro trecho em seus trajetos casa-trabalho ou trabalho-casa, dá quase no mesmo. Já era tarde daquela noite, no entanto, e este andar se fazia quase solitário, com suas poucas moedas a tilintar em um ou outro bolso. Jovens em seus vinte e poucos anos voltavam para casa, sós ou acompanhados, e se acompanhados estivessem, de amigos, amigas ou amantes; uns mais, outros menos embriagados. Talvez houvesse uns mais jovens, outros bem mais velhos, mas nestes e também em quase todos os demais existia uma tal indiferença em relação a ele que em uma reciprocidade inconsciente já não havia nele qualquer esforço em captar definições, fossem elas objetivas ou subjetivas, sobre quem quer que fosse. Alguém mais cínico os chamaria simplesmente de clientes quando lhes era oferecida a oportunidade da caridade, mas este homem somente se referia a eles como pessoas.

Passando ou sendo ultrapassado por carros e gentes, pedia trocados a quem lhe parecesse mais disposto, em uma avaliação praticamente instantânea – e não raras vezes equivocada – de poder aquisitivo, generosidade, disponibilidade de moedas, entre outros importantes fatores. Este exercício, entretanto, não implicava qualquer intimidade, como já implícito em sua resposta à generalizada indiferença alheia; eram negócios cujo sucesso era crítico na satisfação de suas parcas necessidades fisiológicas, restritas tanto pela escassez quanto por mero desconhecimento dos luxos limitadamente possíveis daquela sociedade.

Imaginou ter aproximadamente um dólar e trinta centavos a lhe pesar o bolso em alguns nickels, dimes e quarters quando sentiu fome. Nada intolerável àquele corpo tão calejado pelas faltas, porém a proximidade daquele fast-food vinte e quatro horas acionou-lhe o senso de oportunidade, posto que eram já quatro da manhã. Olhos para os lados, esperou o abrir do semáforo e caminhou arrastando os pés pelo asfalto escuro e empoeirado. Haveria de subir ainda mais uma quadra até a lanchonete, trajeto que lhe permitiu tentar incrementar o pouco dinheiro de que dispunha ao passar por um casal que descia a rua a passos lentos e quietos. O não indiferente e familiar foi tudo que conseguiu até abrir a porta de emes amarelos na entrada daquele recinto de luzes brancas.

Os olhos ainda se acostumavam à claridade repentina enquanto suas mãos e boca já trabalhavam, numa última esperança de chegar ao caixa com algo além daquelas poucas moedas. Os olhares altivos ou medrosos, já poucos devido ao horário, davam o tom de seu insucesso, em grande parte explicável pelo forte odor de álcool e sujeira impregnada que se tornava ainda mais marcante naquele ambiente fechado. Chegava à curta fila do caixa com os mesmos um dólar e trinta e oito centavos – errara por pouco a estimativa –, havendo ainda à sua frente três chances, a se apresentarem num homem alto de jaqueta preta, duas garotas em trajes curtos e um outro jovem de jeans e camiseta, respectivamente.

Desta vez, para além do rotineiro afastamento que causou – sem nenhum centavo conquistado –, recebeu uma advertência seca e direta da pequena moça do caixa quando estendeu a mão ao jovem que já fazia seu pedido, o que não lhe deixou sequer tentar argumentar, algo que sinceramente seria improvável mesmo que houvesse uma chance. A moça, provavelmente nascida no leste asiático e de feições que lhe dariam em torno de dezoito anos, rapidamente retirou os olhos do homem e seguiu seu trabalho, como se a atenção que merecesse já houvesse sido dada, restando-lhe somente o retorno ao final da fila. Uma senhora havia ficado com a posição que outrora fora sua, tendo dado dois passos à esquerda ao vê-lo se aproximar. Já um pouco abatido, quedou-se a uma distância segura daquela mulher até que chegasse sua vez.

Next, já chamava de maneira quase instintiva e carregada de sotaque a senhora a trabalhar no caixa à esquerda da menina asiática. Aparentando seus quarenta anos, já se notavam o cansaço e a desolação da necessidade daquele trabalho em sua fisionomia, e em seu olhar o aborrecimento em atender aquele cliente que se aproximava sujo e arrastado.

Olhou o cardápio colorido e iluminado a luzes brancas como quem vai a restaurante mais caro que de costume, fazendo contas a analisando opções. Frente ao desapontamento que lhe causou notar que seus poucos trocados não seriam capazes de adquirir um simples sanduíche, olhou a caixa com seus olhos mais coitados, sendo recebido com crua indiferença pela senhora – em parte compreensível, diga-se a verdade, pelo já mencionado estado de espírito da mulher e pela frequência com que lhe lançavam estes olhares clementes. Já sem muitas alternativas à mão, recolheu lentamente as moedas aos bolsos, e olhou para trás a buscar por alguma compaixão ao redor, não a encontrando sequer no casal que há pouco entrara e esperava pelo desfecho daquela vergonhosa pechincha para que pudessem pedir seus lanches.

Tomado pela desilusão, sentou-se em uma das várias mesas disponíveis do local, esparramando-se sem qualquer elegância pela cadeira dura. A fome, intensificada pela expectativa da iminente saciedade – ainda que parcial –, fazia com que persistisse de alguma forma, entretanto: ao passar de alguém a levar seu lixo, a entrar ou a sair, resmungava impaciente por qualquer quantia que lhe permitisse comer. Evidentemente, tal aproximação era ainda menos apreciada pelos passantes, que através de seus olhares consideravam a atitude do mendigo de insolente e imperdoável arrogância, o que em nada lhe ajudou.

Dando-se conta de seu próprio descontrole, e de sua ineficácia na arrecadação, resolveu esperar alguma calma e encostou um pouco no assento. Olhou as unhas, umas roídas, outras de pontas pretas, e a pele gordurosa; sentiu a grossa barba, e inutilmente pensou que necessitava banhar-se, uma sensação intensificada quando tocou os cabelos duros e poeirentos. Não seguiu neste exercício mental, em um primeiro momento porque não levaria a nada, e em um segundo porque sentiu um toque em suas costas. Já preparado para ser expulso do recinto por algum funcionário impaciente, surpreendeu-se ao virar-se e encontrar o jovem de jeans e camiseta, que em um movimento rápido lhe estendeu uma nota de cinco dólares.

Ainda surpreso com o ato, e com mãos pouco acostumadas a lidar com notas, o pobre homem somente fez sorrir um sorriso aberto e sincero, ainda que levemente encabulado, manejando cuidadosamente seu novo patrimônio. O jovem o fitou feliz, sentindo haver ajudado de alguma pequena forma, e estranhou a pergunta do homem sobre o sanduíche que tinha à mão direita; desejava saber se aquela seria uma boa opção. Depois de dois segundos de surpresa, o jovem apenas sorriu e acenou positivamente com a cabeça, o que já foi razão suficiente – mais pelos cinco dólares que pela dica – para que o homem estendesse seus braços e escancarasse um sorriso quase infantil.

Já com seu sanduíche às mãos, o homem abrandava sua ordinária fome, porém um triste pensamento não lhe abandonava ao recordar a imagem daquele jovem a lhe recusar de maneira educada o abraço, sem que pudesse entretanto disfarçar um ligeiro olhar de repulsa. Após alguns poucos minutos, havia sido reconduzido, sutil e inequivocamente, a sua familiar condição animal.

O pedido

•dezembro 11, 2009 • Deixe um comentário

Restaurante fino.

Entraram e já puderam sentir o agradável calor amadeirado do recinto, ótima sensação para aqueles dias de mais frio. Foram amavelmente encaminhados à mesa reservada, e já olhavam os cardápios com uma feição dissimulada de conhecedores plenos dos sabores descritos na carta quando, após cinco minutos para pensar, o garçom chega prestativo:

– Boa noite, senhores, como vão? Posso ajudá-los com alguma sugestão ou já estão decididos?

– Já decidimos, obrigado.

– Você poderia me trazer o especial de hoje, por favor.

– Ao molho de menta?

– Sim.

– O senhor?

– Queria lhe pedir para solicitar ao chef que prepare aquilo que ele preferisse se estivesse a cozinhar para si próprio.

– Perdão?!

– Isso mesmo. Aquilo que ele quiser fazer.

– Vou verificar, senhor. Com licença.

Esqueceu-se até mesmo de lhes oferecer a bebida. Entrou na cozinha, acostumou os olhos ao brilho do azulejo branco, chegou-se ao cabeça da cozinha e lançou o inusitado pedido, não antes de requisitar o especial do dia. O homem gordinho e jovial fez troça:

– Vou fazer um bife acebolado! Rá!

Riram-se por rápidos segundos, e o garçom já tinha de seguir com seus pedidos e clientes. Deixou a papeleta nas mãos do chef e afastou-se ligeiro mas sem demonstrar afobação. Sentindo que havia passado o problema adiante, seguiu tranquilo.

– Duas taças do vinho da casa, por favor.

Aproveitando a breve interação do pedido de bebidas, tentou procurar alguma razão para aquele inusitado prato principal. Parecia um cara normal, até, não um excêntrico; era tão normal quanto a pessoa que o acompanhava, que como tantos naquela noite haviam pedido o especial do dia. A maioria ao molho de menta. Desistiu, e caminhou até o bar para buscar o bom e sincero vinho da casa.

Iniciou a preparação do especial da casa sem qualquer concentração. Não que ela fosse imprescindível — afinal àquela altura da noite era-lhe intuitiva a receita –, mas de fato só fazia pensar em qual prato o acompanharia. Levantou rapidamente os olhos a buscar a mesa número cinco. Quem daqueles dois teria cometido aquela excentricidade, imaginava. Encontrou seu reflexo mais apurado para desviar a atenção quando notou um ligeiro movimento de olhares desde a mesa cinco até o pobre cozinheiro aflito, em branco: raciocinou, não sem certa razão, que o fato de se conhecerem visualmente geraria algum tipo de compromisso ou intimidade entre eles, o que seria problemático e poderia afetar sua criatividade culinária. Seguiu mexendo o molho que já estava quase pronto, e sob um delicado aroma de menta tomou sua decisão.

Havia muitas considerações a temperar aquele prato. O outro era o especial do dia, todos sabíamos, e o garçom mesmo já não suportava o usualmente delicioso aroma de menta que se fazia presente. Mas o que trazia à mão esquerda, nem mesmo aquele olfato treinado poderia adivinhar com exatidão — tinha lá suas hipóteses, claro. Imaginou, sim, e de forma correta, a dialética que rondou os pensamentos do chef ligeiramente obeso e alegre, a oscilar constantemente entre o receio de ser exageradamente sofisticado e aparentar arrogância de mau gosto — e, por que não dizê-lo, insincerade também –, e o temor de não surpreender por haver sido demasiadamente simples, trivial, quase desleixado. E, por toda esta carga de sentimentos percebida, o moço trazia a bandeja com peculiares cuidados, quase se esquecendo do especial do dia equilibrado em sua destra mão.

Olharam-se os fregueses por três segundos, já com suas refeições à mesa e as taças aproximadamente à metade. De um lado, o especial do dia, de aspecto saboroso porém com um tom tedioso ao se colocar à frente daquele prato coberto, e de outro o já mencionado prato sendo afagado na alça de sua tampa por dois dedos curiosos do garçom — que se valeu do requinte do estabelecimento para poder ver em primeira mão qual fora, afinal, o resultado daquele pedido encaminhado por ele e até ali desconhecido.

– Oh! — exclamaram.

Numa pequena mesa de plástico num dos cantos da cozinha, um ovo frito se sobrepunha a um suculento bife acebolado. O cozinheiro comia silencioso.

Blecaute no Brasil

•novembro 10, 2009 • Deixe um comentário

Saiu na Folha, não estava ainda no Estadão, mas soube mesmo pelo pessoal de casa: blecaute em várias cidades do Brasil. Teorias da conspiração abundarão…

A atualidade de Einstein

•outubro 22, 2009 • Deixe um comentário

The release of atomic energy has not created a new problem. It has merely made more urgent the necessity of solving an existing one.

Enquanto isso…

•outubro 14, 2009 • Deixe um comentário

 Enquanto nos preocupamos com nossos problemas, compromissos, projetos, dissabores, mais de um bilhão de pessoas no mundo têm fome.

World Population

Fonte: http://esa.un.org/unpp/index.asp?panel=1

Conta simples: 1.000.000.000 / 7.000.000.000 = 14,3%.

Mas é claro que existem coisas muito mais importantes a se considerar…

Uma pergunta sobre a violência

•julho 2, 2009 • Deixe um comentário

Creio que a violência jamais será erradicada em lugar nenhum do mundo, porque somos animais de racionalidade limitada — e esta é uma afirmação de caráter consensual. Porém, quando a violência se torna uma necessidade, um sentimento cotidiano, uma irracionalidade já pasteurizada por justificativas nobres e nem tão nobres, ela também se torna expressão de questões mais profundas de uma sociedade, a distribuição da propriedade, a discriminação racial-social-cultural-econômica-religiosa-etc, o desemprego, a saúde, a vida. E está na maneira em que assimilamos a leitura dessa expressão a definição de como enfrentar o problema.
 
Se você me perguntar o que eu acho, e eu tiver de fazê-lo em uma só frase, diria simplesmente que ‘violência gera mais violência’. Frase quase ingênua, mas que poderia servir de guia para as pessoas. Porque a violência não está somente na agressão física, mas também na indiferença, no desrespeito, etc. Temos, assim, de enfrentar de maneira completamente prioritária a violência exercida pela sociedade ao permitir a discriminação, a falta de saúde, de educação de qualidade, levando fazendo com que ela se restrinja somente a momentos de descontrole, que por estes passamos ou poderemos passar todos. Parece óbvio? Quanto mais anos tenho, menos óbvio me parece.

Uma sugestão para Obama?

•julho 2, 2009 • Deixe um comentário

Sempre que envio algo do tipo a alguém, acaba sendo inevitável a sensação de ser ridiculamente ingênuo. Mas já está enviado ao Obama’s Suggestion Box (lógico, ainda por cima acha que vão ler o que você escreveu), e, imagine se alguém realmente leu e, além do mais, gostou, seria muito bacana ver nascer o sol deste dia.

I would like to suggest the creation by President Obama of a Cease-All-Violence Day, a day in which all US troops and other official institutions with the right of violence propose a cease-fire in all fronts, conversations may be held, understanding may be reached. A day that inspires one to think about the other, about the other’s problems and difficulties, and also about oneself, about one’s own dreams and aspirations, without fear.
I hope the institution of this Day may bring about bona-fide counterparts, willing to truly resolve things and quit the political opportunisms that eventually arise. Because we, citizens-politicians, are always thinking deeply about ways to make people’s lives easier, more enjoyable, richer in all aspects. Not only in our country, upon which we look up more fondly, but in the world. And the blood that runs out of people shot in their heads and hearts is the same in Sri Lanka or Canada, Brazil, Haiti, Cuba, Angola, the US or any other equally respected country, established or not (in a profoundly sincere sense of community, not because of clear nebulous interests). Therefore, violence, in any of its forms, is disrespectful before the world. And we are all wrong as humans beings.

Sincere regards, Douglas

Frase do dia

•junho 4, 2009 • Deixe um comentário

“O mundo era tão rico que apodrecia”.

Clarice Lispector, Amor (dica do glorioso Idelber Avelar)