Audre Lorde

•janeiro 17, 2012 • Deixe um comentário

[m]y fullest concentration of energy is available to me only when I integrate all the parts of who I am, openly, allowing power from particular sources of my living to flow back and forth freely through all my different selves, without the restrictions of externally imposed definition. Only then can I bring myself and my energies as a whole to the service of those struggles which I embrace as part of my living.

 (Audre Lorde, “Age, Race, Class, and Sex: Women Redefining Difference”, 1984, p. 121)

http://www.canonballblog.com/?p=2118

Causações em discurso

•janeiro 17, 2012 • Deixe um comentário

Uma questão que me parece maltratada em diferentes níveis pelas pessoas (de acordo com sua familiaridade com as ciências filosóficas, da saúde, e de acordo com qual delas também), é a força com que a sociedade ‘causa’ a vivência individual. Ela claramente não passa desapercebida pelas ciências, porém vejo como necessária sua consideração mais profunda, como ferramenta de desconstrução da ciência mesma.

Conceder maior consideração à fome, ao desespero humano, à morte desnecessária e prematura, é fundamental para que nos questionemos um pouco antes de tratar uma pessoa voluntária que passou por ‘experiência psicologicamente traumática’ durante trabalhos n’algum dos tantos lados sofredores do mundo. É ter em mente que a realidade do mundo é, sim, chocante, violenta, febril; e perceber, muito mais sofisticadamente que o dó do paciente ‘submetido a tristes condições’, que a origem do trauma está no choque entre a ilusão infantil de bons-mocismos e meias-verdades contra o sangue metálico da guerra e moscas não-esterilizadas de acampamentos emergenciais médicos.

E, para sair do clínico para o social, saudável seria o questionar-se: e as tantas milhões de pessoas cuja ‘realidade avassaladora e chocante’ é a das balas atravessando seus corpos usualmente racializados, é a das infecções em chãos de terra e calor? Mas esta é uma divagação.

Em um outro exemplo, onde estarão as considerações sobre o caráter cultural e socialmente constituído dos gêneros, para não mencionar suas aparentadas opressões cis-generistas e hetero-normativas, nos diagnósticos dos supostos transtornados? As dores, que existem, imputam-se a quem, quando o garrote tem digitais sociais? E como saberemos dizer da inexistência d’um garrote ainda maior, a prender as ciências mesmas?

Não acredito que devamos abandonar esforços na compreensão da humanidade em seus princípios orgânicos, porém é fundamental rejeitar as milenares baboseiras que buscam atribuir-nos hierarquias mais ou menos imutáveis. E, a partir desta rejeição, (re)questionar nossos esforços na compreensão da humanidade em seus princípios orgânicos. Há fortes resistências (pois é, cristãs também, n’algumas paragens fundamentalmente: tá ficando feio pra turma da terra quadrada) em ambos mecanismos.

“O garrote só se sente quando aperta no pescoço; se tá nos livros, nos papeis, nas abstrações, é até confortável.”

(fecho de discurso, simpósio-debate-mesa-conferência)

The Road Not Taken (Robert Frost)

•setembro 23, 2011 • Deixe um comentário

TWO roads diverged in a yellow wood,

And sorry I could not travel both

And be one traveler, long I stood

And looked down one as far as I could

To where it bent in the undergrowth;

 

Then took the other, as just as fair,

And having perhaps the better claim,

Because it was grassy and wanted wear;

Though as for that the passing there

Had worn them really about the same,

 

And both that morning equally lay

In leaves no step had trodden black.

Oh, I kept the first for another day!

Yet knowing how way leads on to way,

I doubted if I should ever come back.

 

I shall be telling this with a sigh

Somewhere ages and ages hence:

Two roads diverged in a wood, and I—

I took the one less traveled by,

And that has made all the difference.

(from http://www.bartleby.com/119/1.html)

Leônidas dá adeus

•setembro 16, 2011 • Deixe um comentário

O que eu sempre senti desde que aquilo aconteceu poderia ser mimetizado em um exercício mental. Suponha que há um ponto em sua vida, um segundo, dias, meses, que definiram muito fortemente suas percepções sobre ela: na verdade, acho que uma boa conceituação de transição adolescente-adult@ deve passar pela experimentação de tal ‘ponto de ruptura’, seja de que maneira se dê este ponto, cada um tem o seu. É, que nem cu mesmo.

Pois bem. E então pense que este ponto importante de sua vida é um ponto que pode lhe levar à marginalização social, risco de ser vítima de violência, uns etcs não exatamente agradáveis.

É esse o sentimento, junto à pergunta sobre o que fazer a partir deste ‘ponto’: esconder à própria lembrança? Negar suas consequências lógicas em prol de uma existência ‘aprazível’? Ou enfrentar a um tudo sem dó de si próprio?

A única coisa certa, ali, parecia ser o sofrer.

Um deles, porém, parecia um sofrer justo, quase bonito diante da História (com H sim). E talvez nem valesse a pena, mas quem disse que ‘valer a pena’ era o objetivo. O objetivo era viver. E morrer bem.

Uma vez me disseram: o grande objetivo da vida é preparar-se para uma boa morte. E derivando algo desta frase, se porventura não há morte, não há necessidade de preparação.

Neste sentido é que proclamo, sem mais delongas, que aceito minha mortalidade e minha preparação para uma boa morte, que oxalá seja um caminho bonito e sincero.

Um eterno abraço a todos.

Leônidas Almeida de Araújo

(último discurso do capitão Leônidas, em seu desligamento do programa, desvirtualizado por escolha própria, razões pessoais. Ano a definir)

Sul

•setembro 12, 2011 • Deixe um comentário

Estou ao sul da felicidade, ou mais bem

de uma felicidade prometida

em livros duvidosos e campanhas borbulhantes;

porém paira um espectro sobre minha terra.

É minha esta terra?

|

Toda a clareza do caminho norte

é nublada pela sensação de engano.

Como tantas noutras épocas,

Oferecem-me a oportunidade, quando muito,

de ser meeiro em latifúndios inquestionáveis.

Latifúndios de um tudo pluri-monetizável, pois.

|

E quem os há de questionar, afinal?

Ao redor, muitas pessoas se movem

numa dinâmica adaptativa — assim é a vida

ou suspeitosamente otimista — iupi, eis o mundo melhor

ou enfim, para que pensar nisso mesmo.

Bom, ainda temos nossos loucos. Graças a deus.

|

Diversos meridianos me vão cortando, alguns sangram.

Meridianos sem cor, pragmáticos

e cabisbaixos.

A vontade é de apagá-los todos,

reconstruir a bússola.

E com quê?

Não se pode entulhar assim o ‘até agora’,

entidade quase viva que nos forma,

de norte tão apegado aos ideais medíocres.

|

Para um novo compasso, disse o mestre

de olhar profundo,

é necessário abandonar o compasso velho.

É necessária uma morte em vida.

|

(em versos, porque tudo me veio fragmentado; preguiça de rigor métrico é forte, no entanto, quase tão grande quanto o desconhecimento dele)

Vancouver

•maio 31, 2011 • Deixe um comentário

(a very late post: this trip was made in March 2011… I know, I know.)

During my last months in Canada, some things worked out (good deals on tickets and good timing — right after the March break) and I was able to visit Vancouver. A week in the third-largest city in Canada and, according to some assessments, one of the best cities to live in the world (similarly to Toronto).

The first impressions of the city were very positive: nice weather, friendly people, great views of nature. Although Vancouver is known to be a rainy city, especially in winter, we were lucky to find only a cloudy afternoon with chilly winds, a couple degrees above Toronto — which, we later checked, had some snow at the time. The first day, a Tuesday, was basically dedicated to a walk downtown, around the hotel area, and to a quick stroll around the University of British Columbia (UBC) to visit the amazing Museum of Anthropology, strongly recommended.

Some pics from the MoA:

Totem poles

Panel

The next day started with a nice walk around Coal Harbour, in which snow-covered mountains form the background for the calm waters. The harbour is contoured by a seawall that extends for 22 km around Vancouver’s waterfront. Even though it was sunny, it didn’t get very warm, which made it easier to walk.

Coal Harbour

During the walk, we could also see a plaque in remembrance of the Komagata Maru incident, a shameful part of Canadian history in which a Japanese steamship bringing South Asian immigrants — also British subjects, therefore with the right to settle throughout the empire — was denied entry into Canada and had to stay 2 months under, you can imagine, terrible conditions. As the plaque says, such a disgrace should never happen again, even though recent episodes and political discourses make the Komagata Maru incident a outrageously current subject of study.

After a snack, we reached Gastown, a historical area of the city which nowadays has many galleries and shops, some of them really nice, and then reached to Vancouver’s Chinatown, one of the largest in Canada – Asian immigration started mainly in Vancouver, among other reasons because of the city’s proximity to Asia. There, we visited the Dr. Sun Yat Sen Chinese Gardens, and walked around some of the neighborhood’s streets. In the evening, we had dinner at Hapa Izakaya, a Japanese restaurant near to the hotel.

In the next day, a fine and sunny Thursday, we rented a car to drive to Whistler, a ride that I was told to make and also recommend: it goes through some beautiful scenery. Not before having huevos rancheros at Templeton, an interesting diner in downtown Vancouver. The road wasn’t busy, and in around 2 hours we reached Whistler, a small town that is very, very clean and standardized, at least in part due to the Winter Olympics hosted there in 2010. On the way back, we had great dinner at Creekbread, a wood-fired oven pizza place that prepares its food with organic produce and quality meats. Recommended!

Our Friday was cloudy and rainy, so we just had a walk around Stanley Park and went to the Punjabi Market, a group of streets with sari shops, jewellery and South Asian food. Some pics are below:

Stanley Park

Punjabi Market

On Saturday, another sunny day, we went to Capilano Bridge, one of the longest suspension bridges in the world, which also has a very nice park and bits of First Nations history (btw, Vancouver has more of ‘First Nations stuff’ — places’ names, totem poles, etc. –, which does not necessarily mean a better recognition of their rights).

In the afternoon, we participated in a Cherry Blossom walk. Even though the trees were a bit late in their blossoming, it was a quite pleasant walk — I know, old folks stuff. However, we did get to know downtown Vancouver better afterwards.

Saturday evening, it was time to meet an old buddy from school — and I mean grade school: Andre. He’s spending a couple months in the city and we managed to meet for a beer at Railway Cafe, a bar downtown. It was very good, it had been a while we didn’t talk, but I felt like we need more time to catch up. Hopefully soon.

Sunday was an easy day, cloudy and with sparse showers. We went to the Public Market in Granville Island, which has lots of nice food and produce, art and souvenir stores. We bought some nice bread, spices, and cheese, and had a mini-picnic on the walk back, passing by the Inukshuk at Stanley Park.

Finally, in the last day in Vancouver, a Monday, we sort of wrapped up our trip: because we were going to another hotel closer to the airport, we walked around the city for a bit, did some shopping and packed. It was a very nice trip, with beautiful scenery and places… from what I saw, there are many reasons for Vancouver to be such a great place to live at — if you have some money, since it is quite expensive.

Definitions

•maio 30, 2011 • Deixe um comentário

Defining the beautiful is sufficient to define the ugly.

Photos from Toronto

•maio 3, 2011 • Deixe um comentário

During my last weeks in the city, I finally took the time to edit and upload some of the pictures I’ve been taking around Toronto. Not that much work, actually — given my editing skills –, but something constantly postponed. More pics to come, from Toronto or other places.

Depois de muito postergar, subi algumas fotos tiradas da cidade onde estive por mais de três anos… enrolei demais para editar as fotos e tal, mas taí. E tem várias outras fotos ainda, de Toronto e outros lados.

2009: Toronto pics (including Autoshow)

jun-2010: Palestine protest (after the Mavi Marmara incident)

nov-2010: fall bike ride

jan-2011: close to University of Toronto

mar-2011: winter-spring 2011

Panfleto

•abril 21, 2011 • Deixe um comentário

Um dos fortes elementos que nos permitiu avançar enquanto civilização foi a expansão extrema de nossas capacidades comunicativas, entre elas especialmente a comunicação eletrônica e a possibilidade de reprodução audiovisual. Aliás as destaco mais por sua histórica contemporaneidade que por uma possível responsabilidade por maiores saltos: talvez a escrita ou a imprensa o tenham sido, porém não estou capacitado a entrar nesta discussão.

Porém, conforme se vai expandindo a capacidade comunicativa humana, tornam-se mais ágeis e precisos, em ambos fins (emissor-receptor), os mecanismos para se informar e se receber informações. Parte daí, portanto, a possibilidade de que tenhamos uma percepção mais matizada, mais pormenorizada, dos momentos e dos fatos históricos. Torna-se cada vez mais difícil escutar somente a história dos vencedores — ainda que estes, dentro de uma pluralidade de opiniões e ideologias, façam muita força para dominar a gigante indústria de comunicações que inunda o mundo de informações (para o bem, para o mal). Crescentemente podemos buscar, com resultados razoáveis, outras versões do que acontece.

Neste sentido é que pudemos ver o Vietnã destruído, como podemos ver o assassinato de civis no Iraque, na Palestina. Como podemos ver isto. Como pode(re?)mos ver o desrespeito às civilizações indígenas oprimidas, às nações africanas, ao imigrante de cor*.

Obviamente, não devemos jamais esperar que, amanhã pelas onze da manhã, sairemos às ruas a questionar direitos de propriedade, liberdades individuais (para ambos os lados, da liberação e proibição), tradições inúteis. Não será assim. E nem tente “fazer sua parte” toda de um gole: você poderá se sentir ridículo por não se esforçar o suficiente, ou ir pra cadeia por se esforçar demais.

Dê suas bicadas. Saiba lidar com as espingardas. E, acima de tudo, somos todos juntos.

* que nações e civilizações (co)existam até o dia da liberação humana final.

(artigo em panfleto anarquista plebiscitário, 2019)

(Hi/E)stória

•abril 14, 2011 • Deixe um comentário

Aí, ó. Meia página na história do traveco lá.

Cê falou com o Nogueira, lá, né. O delegado.

Tá até com frase no artigo, olha só. Segunda coluna.

Que doideira isso, não. Dez tiros sem dó.

Nove, Silva. Foi nove.

Porra, que diferença faz, dez, nove. Foi tiro em gente morta, já.

É, mas foi nove. O delegado disse…

Tô pegando no pé, né Silvão. he he

Eu sei, po. E a vizinhança?

Que que tem?

Você conversou com eles?

Falei com uma veia lá, um outro senhor, um estudante.

Estudante?

É.

De quê?

Sei lá, estudante.

Poderia ser estudante de Direito?

direito?

É, Direito.

Acho que não.

Se fosse, dava pra por a opinião em separado, sabe. Aquele lance de ‘especialista’.

Ah.

Lição pra você, garoto.

Po, valeu mesmo. Mas não era não, tava com cara de colegial.

E então?

Então o quê?

Qual a reação?

Ah, pessoal com medo, drogas, violência, essas coisas. A veia até falou de deus uma hora, que aquilo era errado e tal, e era castigo.

Porra. Tu pôs isso na matéria?

Não, não. Nem precisa procurar, fica tranquilo. he he

E vocês gravaram?

Ela falando?

Não, minha tia no banheiro! Lógico né porra.

Ai que isso Silvão, você tá tão bravo.

Deu pra imitar viadinho agora, é?

Tou brincando né Silva. Desculpa aê. Gravamos ela sim.

Se bobear dá pra mandar pra alguém o vídeo.

Você diz, tv?

Sei lá, a Globo Regional, SBT, Datena. Esse pessoal todo.

Olha, chefe, sei se vai dar não. Eu só gravei pra ter material de consulta.

Que que tem?

Não peguei a assinatura dela.

E?

E o quê?

E amanhã você vai pegar essa porra né meu camarada!? Ou não?

Poxa chefe, você é psico cara. Tá prevendo meu futuro agora. he he

Sou só minimamente inteligente né. Tou de sacanagem contigo. Amanhã tu pede pra ela assinar um compromisso, você tem o modelo né?

Sim, sim. Beleza. Mas Silva, você acha que rola pôr isso na tv?

Como assim?

Você acha que os editores vão aceitar? É meio pesado né.

Rapaziada tá comprando qualquer discurso hoje em dia. O risco não é não comprarem, é pagarem pouco pelo excesso de oferta.

Aula de economia, hein Silva. Tá fazendo curso ainda?

Nada, parei um pouco. Parei no auge! ha ha

Que isso, chefe. Tá mandando bem aqui.

Seu puxa-saco de merda! ha ha

Então fica assim, Silva: amanhã pego a assinatura, e se você tiver alguma correção a fazer no artigo, faço isso também antes de mandar pra frente.

Certo, obrigado! Boa matéria garoto.

Obrigado.

Duas da manhã. Luzes brancas em ar levemente empoeirado. Montes e montes de papel, uns sujos.

Silva, de calcinha por baixo de suas calças sociais, chora alcoolizado ao ver o vídeo. Este vídeo. E tenta dizer pra si mesmo, com toda a concordância do silêncio:

Que caralho! Se fosse qualquer celebridadezinha aí iam ser cinco dias em jornal nacional. Todas as perspectivas bonitinhas, paz, justiça, caminhada e a porra.

Pra Priscila resta essa velha falando merda, o povo falando de drogas, da violência potencial contra eles próprios. Esqueçam a violência real, destripada, fétida e gelada; essa não é pra gente, é pros travecos aí.

 
Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Join 42 other followers